Info Angola

Destaques

Opinião

Os problemas do desemprego em Angola

 
Alves da Rocha

Image“Em Setembro de 2008 foram prometidos, em quatro anos, um milhão de novos postos de trabalho para os angolanos. Da mesma forma que começa a elaborar-se uma agenda nacional para a diversificação da economia, faz-se urgente uma semelhante para o emprego.”
  
Assiste-se, neste momento, no nosso país à onda da diversificação da economia. Não há discurso oficial que a não refira; dificilmente as palestras, os colóquios e as conferências lhe passam ao lado e a sociedade civil interroga-se sobre porque só agora é que nos lembrámos deste tema tão transversal e fundamental da sustentabilidade do crescimento económico. Foi necessário o Presidente da República chamar à coacção esta elementar tese da estruturação da economia nacional para que agora, e muito bem, estejamos todos preocupados com a mesma.

Algo de semelhante tem de se passar com o emprego. Ainda que ninguém conheça formalmente a realidade e a dimensão deste fenómeno, pressente-se que Angola tenha uma taxa de desemprego muito alta, tal a quantidade de pessoas a biscatarem nas ruas — para quem a economia formal não tem tido capacidade de oferta sustentada de novos postos de trabalho ,a importância do êxodo para as cidades (principalmente do litoral do país) e os preocupantes índices de criminalidade urbana. Segundo algumas estatísticas internacionais, Angola apresenta uma das maiores taxas de desemprego da África Subsariana e a segunda mais elevada da SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral).

Não devemos esquecer que em Setembro de 2008 foram prometidos, em quatro anos, um milhão de novos postos de trabalho para os angolanos. Os processos de criação de emprego são complexos, difíceis nas condições actuais de elevado desenvolvimento tecnológico, e demorados, dadas as suas relações com o crescimento económico. E quando se fala de empregos permanentes então as contrariedades são incomensuravelmente maiores.

A crise económica mundial ocorrida em 2008/2009, relativamente à qual ainda não se possuem indicadores seguros de que tenha sido ultrapassada, em particular nos países ricos existem riscos de novas bolhas imobiliárias e bolsistas e a concessão de crédito às economias continua sujeita a restrições ,que são os que puxam pelas restantes economias, mesmo ponderadas as poderosas influências da China e da Índia, teve efeitos sobre o crescimento do PIB, as contas públicas e os défices externos de todos os países.

Na sua reunião de 6 de Fevereiro do corrente ano, os ministros das Finanças do G7 concluíram, acertadamente, que é demasiado cedo para se iniciar o processo de retirada de incentivos. De resto, o grande ponto de interrogação é: estarão as economias preparadas para retomarem a trajectória do crescimento, uma vez eliminados os poderosos incentivos monetários e financeiros que os países aplicaram para diminuir os efeitos da crise? Serão as economias capazes de, sozinhas, reaprenderem os caminhos normais de funcionamento da economia de mercado? Apesar de todos os incentivos as taxas de desemprego não pararam de aumentar.

A destruição de emprego tem sido uma das consequências mais dramáticas da crise económica e financeira de 2008/2009 em todos os países. A taxa de desemprego tem atingido valores muito altos em todas as economias desenvolvidas e não se espera que a situação se altere de modo substancial e sustentável antes de dois ou três anos. Naturalmente que os efeitos são assinaláveis sobre os tecidos sociais e a pressão sobre os sistemas de previdência e assistência social tem sido uma das razões dos défices orçamentais colossais registados na Europa, Estados Unidos e Japão.

A taxa de desemprego nos Estados Unidos em 2009 excedeu os 10%, valor exactamente igual ao verificado em Portugal. Na Alemanha, chegou aos 15% e na Espanha quase que ultrapassou 20%. A China tem passado um pouco ao lado destas consequências, por motivos variados: a sua taxa de crescimento no pior ano da crise mundial foi de 8,5%, a economia chinesa continuou a criar empregos, ainda que em volume e percentagem inferiores ao passado, e as responsabilidades sociais e previdenciais das empresas e do Estado chinês são praticamente nulas, ficando, assim, a classe trabalhadora entregue aos seus próprios cuidados de saúde e de assistência.

Também por isto, é que a economia chinesa tem apresentado a maior taxa de poupança do mundo.

O desemprego em Angola

Angola também se viu envolvida na crise económica, sendo expressão desse facto a relativa estagnação do PIB em 2009 (não mais do que 2% de variação face a 2008, de acordo com as estimativas do Centro de Estudos da Universidade Católica de Angola), o substancial corte nos investimentos públicos e a retracção no investimento privado. Seguramente que o desemprego deve ter aumentado.

Apesar das estatísticas do emprego em Angola serem muito lacunares, é possível proceder a estimativas, mesmo que grosseiras, sobre a taxa de desemprego no nosso país. Partindo das informações conhecidas sobre o PIB por habitante em 2009 e das correlações entre variáveis demográficas e económicas cheguei a uma taxa de desemprego de 26,8%, um agravamento de 2,9 pontos percentuais face à situação de 2008. É uma taxa muito elevada de desperdício do mais importante factor de crescimento duma economia, o capital humano.

Conforme disse anteriormente, não há Governo no mundo que não defenda a criação de emprego. A questão essencial é: quem é capaz de criar o maior número de empregos numa economia?

O Estado ou a iniciativa privada? A resposta deve ser encontrada na capacidade de se gerir, convenientemente, um negócio, com tudo o que isso exige de inovação constante, detecção de mercados, assunção de riscos, gestão de pessoas e liderança durante anos consecutivos. E isto não é o Estado que o deve fazer.

Criar emprego só é possível com pessoas que se sujeitem a fazer empresas, o que nem sempre vale a pena, atendendo ao esforço envolvido no vencimento de obstáculos e condicionalismos.

É aqui que entra o Estado, como criador de condições que enquadrem e facilitem a iniciativa privada, porque o emprego não se cria por decreto, mas por uma economia forte e competitiva. O emprego cria-se através de reformas estruturais, que libertem o potencial de crescimento económico dos países e de apoio a empresas competitivas nos bens transaccionáveis. A recuperação duradoura e sustentável do emprego acontece quando e só quando o crescimento económico se encontrar numa trajectória favorável. Compete aos empresários encontrar as oportunidades de investimento criador de emprego. Compete às autoridades facilitá-lo e torná-lo estável, definidas políticas que garantam confiança, através da competitividade e da adaptabilidade da economia a um mundo em mudança.

A criação de emprego não se compadece com panaceias de curto prazo e necessita duma estratégia coerente e inovadora. Da mesma forma que começa a elaborar-se uma agenda nacional para a diversificação da economia, faz-se urgente uma semelhante para o emprego.


[ Voltar ]
Anuncie aqui! Clique para mais informações.